Especialista explica que informações reais sobre dificuldade, guias capacitados e planejamento de segurança são fundamentais para evitar riscos
Após a tragédia envolvendo a mochileira e publicitária brasileira Juliana Marins, de 26 anos, que faleceu enquanto fazia uma trilha e caiu em penhasco no vulcão do Monte Rinjani, na Indonésia, o cuidado antes e durante uma viagem de turismo de aventura deve ser redobrado.
Muitos dos acidentes em trilhas na natureza poderiam ser evitados com informações claras sobre o destino, orientação profissional e preparação adequada para cada tipo de desafio. Com o avanço do ecoturismo e a crescente busca por experiências ao ar livre, a atenção à segurança tornou-se ainda mais essencial para quem se aventura por montanhas, florestas e regiões de difícil acesso.
Em 2024, os parques nacionais brasileiros registraram um recorde de visitação, com mais de 12,5 milhões de entradas, segundo dados do Governo Federal. Esse crescimento reforça a importância de orientar melhor os visitantes e garantir operações mais seguras.
“Situações como essa reforçam a importância da segurança em atividades turísticas em ambientes naturais remotos e da preparação para uma resposta rápida e eficiente em caso de acidentes”, diz nota da ABETA (Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura).
Desde 2003, a ABETA atua pela qualificação e pela promoção da segurança no turismo de natureza no Brasil. “Por meio do Programa Aventura Segura, realizado em parceria com o Ministério do Turismo, o Sebrae Nacional e apoio da ABNT, a Associação contribui para o desenvolvimento de mais de 40 normas técnicas da ABNT, incluindo a ABNT NBR ISO 21101 – Sistema de Gestão da Segurança, prevista em legislação nacional para as atividades de turismo de aventura.”

Cuidados ao praticar turismo de aventura
Um dos principais fatores de risco é a escolha de percursos incompatíveis com o preparo físico ou a experiência dos viajantes.
“É fundamental que as trilhas sejam classificadas corretamente quanto ao nível de dificuldade e que essa informação esteja clara no momento da reserva. Não se trata apenas de distância, mas também de desnível, tipo de terreno e tempo total de caminhada”, explica Lucas Ribeiro, fundador do PlanetaEXO, plataforma de ecoturismo e agência de viagens focada em experiências sustentáveis nas principais regiões naturais do Brasil.
- Classificação de dificuldade: informação clara antes da escolha
Escolher uma trilha sem conhecer o nível real de exigência é um dos erros mais comuns. “Empresas responsáveis devem fornecer informações detalhadas sobre a dificuldade de cada percurso, incluindo quilometragem, tempo estimado, ganho de altitude, inclinações, tipo de relevo e outras características do terreno. Assim, o viajante pode tomar uma decisão consciente e evitar surpresas desagradáveis ao longo do caminho”, reforça o especialista.
- Guias preparados
A presença de um guia local experiente vai muito além do conforto, é uma questão de segurança. Optar por profissionais treinados faz toda a diferença na condução de grupos em áreas remotas e de difícil acesso. Além de conhecer o terreno, o clima e as particularidades da região, esses guias estão preparados para prestar o suporte necessário ao longo da trilha, acompanhar o ritmo dos participantes e tomar decisões rápidas em caso de cansaço, desistência ou mudanças inesperadas nas condições do percurso.
- Equipamentos adequados: responsabilidade compartilhada
O equipamento adequado é essencial para garantir segurança e conforto durante a trilha. Mais do que seguir uma lista padrão, os guias devem validar com os participantes o que é necessário para cada percurso, considerando terreno, clima e esforço físico. Quando os itens fazem parte do pacote, a agência deve fornecê-los.
Caso contrário, o guia orienta o viajante sobre o que levar, incluindo roupas confortáveis, blusas térmicas para o frio, tênis ou botas de trilha com boa aderência, bastões de apoio e alimentos leves como barrinhas energéticas. “Uma dica importante é checar com o guia se o equipamento que você pretende levar é adequado para as condições da trilha. A escolha certa faz diferença no desempenho e na segurança durante o trajeto”, comenta Lucas Ribeiro, do PlanetaEXO.
- Planos de saída para casos de cansaço ou desistência
Nem todo viajante consegue completar o percurso inicialmente previsto, seja por cansaço, questões de saúde ou mudanças climáticas. Em trilhas com rotas alternativas, é fundamental que haja um plano claro de saída. Quando isso não é possível, cabe à equipe de guias oferecer todo o suporte necessário para garantir que o participante consiga retornar ou aguardar em segurança até que uma solução viável seja encontrada. O objetivo é minimizar riscos e evitar que a situação afete a segurança do restante do grupo ou da equipe de apoio.
- Comunicação e sinalização: sempre deixe alguém informado
Em trilhas localizadas em áreas remotas, onde o sinal de celular pode ser inexistente, uma medida simples, mas muitas vezes negligenciada, é informar previamente amigos, familiares ou a própria agência de turismo sobre a rota planejada, horários estimados e possíveis pontos de contato ao longo do trajeto. Além disso, os guias devem trabalhar com estratégias de comunicação interna no grupo, como estabelecer pontos de parada e intervalos para checagem geral.
- Aventura, mas com responsabilidade
“Trilhas e expedições em ambientes naturais oferecem experiências transformadoras, mas precisam ser encaradas com a seriedade que a atividade exige”, complementa o fundador do PlanetaEXO .“Informação transparente, acompanhamento de guias locais experientes, equipamentos adequados e um plano de segurança bem definido são cuidados que fazem toda a diferença para garantir que a aventura seja a melhor e mais segura possível para todos”.
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Turismo de aventura cresce, mas ainda enfrenta insegurança jurídica
Apesar do reconhecimento internacional como melhor destino do mundo para o turismo de aventura, o Brasil ainda convive com uma realidade preocupante nos bastidores do setor. Para especialistas, a falta de regulamentação específica, a informalidade de muitos prestadores e a fiscalização insuficiente travam o crescimento sustentável da atividade e colocam em risco a segurança dos turistas.
“A ausência de um marco legal próprio gera insegurança jurídica tanto para consumidores quanto para operadores sérios”, afirma o advogado Marco Antônio Araujo Jr., presidente da Comissão Especial de Direito do Turismo, Mídia e Entretenimento do Conselho Federal da OAB.
Riscos aumentam com a falta de normas específicas
Casos recentes, como o acidente com balão em Santa Catarina, reacenderam o debate sobre práticas inseguras no turismo de aventura. Segundo o especialista, atividades como balonismo, voo livre, rapel e mergulho ainda operam sob normas genéricas – como o Código de Defesa do Consumidor e regras da ABNT – sem considerar seus riscos e particularidades.
“Hoje, não há uma legislação que trate especificamente do balonismo turístico, por exemplo. O que existe são regras da ANAC voltadas mais à navegação aérea do que à segurança do turista”, explica Marco Antônio.
Lei Geral do Turismo avançou, mas ainda não basta
A recente Lei Geral do Turismo (Lei nº 14.978/2024) fortaleceu o Cadastur e trouxe avanços sobre responsabilidade civil, mas ainda não contempla com profundidade as exigências do turismo de aventura. Para Marco Antônio, é urgente a criação de um marco regulatório específico, com critérios técnicos, exigência de seguros, qualificação profissional e integração entre os órgãos de fiscalização.
“Existem operadores sérios, que seguem protocolos, oferecem treinamentos e trabalham com segurança. Mas ainda vemos muitos clandestinos, sem seguro, qualificação ou compromisso com a integridade do turista”, alerta.
O que deve constar no novo marco legal?
Entre os pontos prioritários, o especialista lista:
- Definição de padrões mínimos de segurança
- Regras claras para capacitação de profissionais e certificações
- Seguro obrigatório para operadores e atividades
- Sistema de gestão de segurança com base na ABNT NBR ISO 21101
- Criação de um cadastro nacional de operadores
- Integração de dados com Procons, Ibama, ANAC, Defesa Civil e Ministério do Turismo
- Campanhas educativas para orientar os consumidores
Ministério do Turismo convoca debate com especialistas
O tema será discutido em uma reunião nos próximos dias no Ministério do Turismo, com participação de representantes do governo federal, setor privado e entidades jurídicas. A Comissão da OAB já confirmou presença e vai colaborar com sugestões técnicas e jurídicas.
“A ideia é construir, de forma colaborativa, uma minuta de regulamentação voltada às atividades de maior risco, como balonismo, voo livre e mergulho”, adianta Marco Antônio.
Caminho é fortalecer segurança e estimular um mercado ético
Para o advogado, o caminho para o Brasil liderar com responsabilidade o turismo de aventura passa por três pilares: regulamentação, fiscalização e qualificação.
“Sem fiscalização, a legislação perde eficácia e a informalidade cresce. Sem operadores capacitados, não há como garantir experiências seguras. E sem regras claras, todos perdem: o turista, o bom empreendedor e o próprio país”, conclui.
